Harnon-quê?

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Nikolaus Harnoncourt

 

Harnoncourt pegou em música do século XIX para transformar o XXº e influenciar irremediavelmente o XXI. Eu como sou precipitado, vou mais longe: para mim Harnoncourt encarnou o século XX, FOI o século XX, e não consigo deixar de pensar na incrível relação que há entre ele e um outro grande fenómeno musical que surgiu nesse século: a gravação. A razão é simples (como é óbvio: nunca esperem de mim grandes raciocínios).

Imaginemos como seria em 1816, num belo domingo, a preparação de  uma sonata qualquer de Beethoven para tocar no teatro de não-sei-onde. Se vos perguntassem quantas vezes puderam eu ouvir esta sonata ANTES de a tocar em público, talvez respondessem… zero? uma? Teriam de ter a sorte, o dinheiro, e os meios para ver alguém a fazê-lo num teatro perto. Essa seria a vossa única referência. E era pouco provável que a tivessem, simplesmente pegavam na partitura e viam-na da maneira que quisessem, esborrachavam as notas que quisessem, enfim…

Voltamos a 2016. Eu quero tocar a dita sonata. O tio Google dá-me milhões de gravações para as quais me posso seguir, cada uma me vai influenciar à sua maneira, vai calando o meu instinto, o meu canto interior. Há tanta gente que sabe tanto sobre essa sonata, que é inevitável que me contagie… E quando eu for gravar a sonata, vai sair uma gravação polida, uma gravação “clássica”. O que houver de novo na gravação só vai ser notada pelos megalómanos, ou por outros músicos.

Harnoncourt era o mais normal desses músicos (muito bom, por sinal). Mas quando se viu livre, libertou a besta musical selvagem que tinha dentro de si. Teve a sabedoria de ouvir muito, ler muito, pensar muito, mas também teve a sabedoria de SE ouvir e de descobrir o que era a música para si. Fez gravações que se fossem feitas hoje em dia por um maestro comum, seria cruxificado por “violência”, “crudez”, etc. Quando todos antes dele ignoravam as indicações de tempo dadas por Beethoven, Harnoncourt foi o louco que as levou a sério e pôs os músicos a transpirar. Talvez porque Beethoven, para ele e para mim, fosse assim mesmo: jovem, activo, vívido, lúcido, e tantas frases divinais surgissem como quem formula uma frase (e não como quem escreve um poema).

Não vos vou mentir: tudo o que quis com este post foi pôr-vos a ouvir Beethoven dirigido por Harnoncourt. Mas deixo uma questão no ar: se ele era a pessoa de acordar os mortos com tanta vivacidade, não era ele a pessoa certa e ideal para acordar o ouvinte de hoje? O que muda de música no Spotify como quem lê o feed do Facebook, e precisa de algo realmente louco para dar 10 segundos de atenção?

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Música e Aquariofilia

fish-aquarium-qlookQuem se dedica à aquariofilia sabe a dificuldade que é criar e manter um aquário saudável e bonito. O truque é fazer com que os peixes se sintam o mais à-vontade possível, já que são eles que vão criar o seu próprio ecossistema. As plantas não vivem sem eles (principalmente sem os que comem os caracóis!), mas eles também não vivem sem as plantas. Tudo isto exige espaço e tempo.

Comprar um aquário para iniciantes é portanto uma muito difícil escolha. Se comprarmos um aquário pequeno, o investimento de tempo e dinheiro é menor, mas o hobby vai ser tão difícil que eventualmente desmotivamos e desistimos. Se comprarmos um aquário grande, vai ser mais fácil começar e vamos estar mais motivados, mas temos de ter uma grande confiança em nós próprios porque pagamos bastante por tudo isso. Este é um dos dilemas que exigem alguma ponderação e equilíbrio quando criamos um aquário…

…ou quando orientamos os nossos filhos para aprender um instrumento musical. Se compararmos momentaneamente os alunos de música a peixes bonitos e coloridos, descobrimos que ensinar é um pouco como praticar aquariofilia. Desde a compra de um instrumento (barato ou caro, bom ou “mais ou menos”), até à postura nas audições, as comparações são imensas. E já que o artigo não vai muito longo, deixamos alguns exemplos:

  • Compra de um instrumento: É talvez o exemplo mais óbvio. Um instrumento muito fraco nunca vai ter muito bom som, por muito que o aluno toque bem. Por outro lado, é precisa uma grande dose de confiança por parte dos pais para decidir encurtar as férias e comprar um instrumento melhor… Quantas vezes não ouvimos “isto é só uma fase, daqui a uns meses se calhar já quer desistir”?.
  • Ensino da “técnica instrumental”: Comprar um livro sobre aquários antes de começar um aquário nem sempre é boa ideia. Através do livro, vamos começar com um aquário grande, dezenas de químicos, areia especial, plantas caríssimas, redes e outros acessórios… Em suma, por vezes o melhor é seguir o instinto e obrigar-nos a fazer asneiras. O mesmo acontece com uma criança em aprendizagem: quanto mais praticar, melhor vai tocar. O que procuramos nas nossas aulas é acelerar esse processo, resolvendo problemas que podem assaltar o aluno mais tarde. Mas se somos demasiado interventivos, impedindo o aluno de improvisar e de tocar o que quiser e como quiser, estamos a retirar espaço e água ao aquário… E ele vai acabar por desistir. Novamente, é um compromisso difícil de manter.
  • Lidar com a adversidade: Entrar numa loja com aquários é perceber que há soluções para tudo. Desde produtos para embelezar as plantas até químicos para matar os caracóis, há sempre algo errado no nosso aquário. Por outro lado, se entramos em pânico quando vemos o PH a subir 0.1, estamos a fazer diminuir a resistência do peixe, e ele vai ficar mais e mais sensível às variações do PH… Um dia morre e não se sabe porquê. Há que deixar o peixe lidar com a adversidade. Um aluno também tem de lidar com a adversidade sozinho, porque isso fá-lo-à ganhar prazer e know-how com o instrumento. O professor que protege o aluno da agressividade do palco, da falta de tempo, das pequenas irritações na orquestra, poderá estar a perpetuar um mundo cor-de-rosa irreal, e garantir que a queda será maior no futuro.

Dirá o leitor que formar um músico (ou um peixe) não é, afinal, nada de novo. Quem queira começar a sua pequena horta urbana tem de tomar as mesmas decisões, por exemplo. Mas nada disso desvirtua a comparação com os peixes: além de mais bonita, pode-nos ajudar a decidir sobre questões que não são, afinal, tão complicadas assim.

Hoje é o dia do mito. Abracem um.

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Xô, xô, afastai-vos, seres do demónio! Ahummm, ahummm… Xô convosco, xô com os que só vão ler duas linhas disto até perceberem que não envolve mulheres nuas, nem futebol, nem é engraçado. Pronto, estou a brincar. Fiquem comigo, vá lá. Sou um animal meigo, e falo-vos com amizade acerca daquele excelente ensaio do David Marçal chamado “Pseudociência”. Que, a propósito, tem servido eficazmente de arma de arremesso para os fundamentalistas do “não se vê, logo não existe”, ou para os cépticos de todo o tipo, ou para os que acreditam que a ciência é a resposta para tudo na vida. Mas cada um vê o que quer ver, e se fizermos um esforço também vemos ali suporte para os que vivem das incertezas, para os fundamentalistas comunistas, enfim…

Nada disso me incomoda. Aliás o livro é fantástico e recomendo-o profundamente. Nem 5€ custa, lê-se num instante, e é um bom livro mesmo. Fala muito da desinformação que abunda por aí: basta ligarmos a televisão durante a tarde para vermos alguns produtos “milagrosos”, “cientificamente testados”, que tanto consomem a já-de-si curta reforma dos nossos velhinhos. O livro explica como é que estas mentiras chegam à televisão, e incita-nos a agir para acabar com isso. Mas se formos “caçar” a desinformação sem qualquer critério moral, só para alimentar o nosso próprio ego, também acabamos por ser uns parvinhos sem sal nem cor nenhuma. Ninguém gosta dos sabichões que dizem que somos estúpidos por acreditarmos na sorte, na religião, no karma, no tio patinhas ou no ET, pois não?

Li um artigo assim meio sanguinário que despedaçava todos os mitos da lua cheia, e falando-se em Platão lembrei-me da doutrina do ethos, apoiada por tantos filósofos e teóricos na Grécia antiga. Não vou entrar em grandes detalhes sobre isso, mas basicamente a ideia deles era equilibrar a música, o exercício físico, os costumes e a maneira de viver, etc, de maneira a formar um ser equilibrado. E tem sido sempre um tema actual: no barroco falava-se nos affeti, e ainda no século passado tínhamos um psicólogo chamado Watson a dizer give me a baby and I can make him any kind of man

…sou o único a achar tudo isto tremendamente bonito e poético? O exemplo da Lua: eu posso crer ou não crer que a lua influencie o ser humano, mas em ambos os casos ela está lá. Inspirou milhares de artistas, é bonita, é misteriosa, e se nos deixarmos levar pela tal mentira (ou verdade), o máximo que acontece é sair um poema, um quadro ou uma coreografia. Nada de muito perigoso. A frase do Watson também ficou famosa por ser tão bonita e inspiradora: abraça uma criança, cuida do teu meio, da tua família, do teu bairro, do teu planeta, que ele te retribuirá tudo o que fizeres por ele. A homeopatia também é poética e bonita: tudo mata, tudo cura, procura o bom que há no mau e o mau que há no bom. Vamos mais longe, à religião: ama o próximo como a ti mesmo, honra teu pai e tua mãe… Não me acredito que nenhum destes conceitos te toque, amigo leitor, a menos que não tenhas coração (o coração figurado, bonito, não aquele que sei que tens, e que em boa verdade espero que bata por muitos e longos anos).

O que defendo, mais do que uma tomada de posição feroz sobre estes assuntos, é que todos possamos ser verdadeiros, inteligentes, cultos, sem deixarmos de ser criativos, imaginativos, artistas… Felizes, em suma. Basta separar o que é conhecimento e o que é sabedoria. Conhecimento é evitar acreditar, e sabedoria é fingir acreditar… Não?

Do Ensino de Música Parte 2: Onde ficam os ouvidos? E a emoção?…

imagem artigoCerto dia, tinha a televisão ligada em mais um daqueles canais, que cada vez nos ensinam menos e já nem nos entretêm. No entanto, a certa altura começa uma entrevista com uma senhora que acolhe crianças em situação precária. Nada disto me chama muito à atenção, até que esta se refere ao rapaz que adotou, dizendo: “Ele faz melodias no nosso piano, sem ter uma única noção de música!”. Ora, eu pensei imediatamente: “Claro que faz!”.

Pensando neste exemplo, e comparando com os atuais alunos de música, vemos que cada vez mais se exaltam alguns erros fulcrais na nossa relação com a música. O maior de todos deve ser mesmo o facto de os músicos não tocarem por prazer, mas com vista a resultados. Ou seja, os alunos gostam muito de tocar (obviamente), mas não no sentido de realizar essa ação para uma satisfação mais duradoura e aos olhos da pedagogia, um interesse individual. Vítimas um pouco do nosso sistema educacional, os nossos músicos tocam para entrar num ensino superior que lhes exige serem ótimos “tocadores de instrumento”. Se não tiverem essa emoção duradoura ao tocar, esse interesse individual, um dia ficarão sem vontade de tocar. Isto é, num momento em que é já bastante acessível estudar instrumento, é importante que se saiba esperar pelas decisões mais corretas em relação a um possível futuro na música.

Mas apenas lendo e tocando uma partitura, estamos a fazer música? Já McPherson, e outros estudiosos, dizem o contrário, ou seja, na conjuntura olhos e sistema motor, faltam os ouvidos. A audição está cada vez mais a ser descartada da prática musical. Mas de que serve tocar uma escala, se não a soubermos cantar, audiar? Se não a soubermos cantar, na verdade nunca a percebemos/interiorizamos realmente.

O rapaz de que falo no início deste artigo nunca teve aulas de formação musical, muito menos de piano. Ele apenas cantava ou tocava com o que teve disponível até hoje, mas estabelecia no seu cérebro um entendimento do que ouvia ou tocava, através do sistema auditivo, cerebral/neurológico e motor. Isto fez com que reconhecesse cada som, que havia cantado ou tocado, quando colocou as mãos no piano. É nesse sentido, a meu ver, que deve caminhar o ensino da música, ou seja, através da visão de que o instrumento é apenas um meio para um entendimento e audição aprofundada da música. Tudo o resto deveria surgir a posteriori.

Educação para educados

 

Coisas boas são apenas coisas más. Explico:

Hoje eu não deveria ter bebido leite, nem lavado os dentes com flúor, nem ter usado açúcar, nem ter ouvido música a 440hz (esta é genial). E devia apenas alimentar-me de bagas de goji, até que algum amigo partilhasse no facebook um artigo que me dissesse que estas também fazem mal, artigo este baseado noutro artigo, que se baseava numa fonte que citava outra fonte que estava implícita num artigo publicado por um instituto qualquer, sem qualquer reputação, mas que deve ser bom porque tem “Royal” no nome. Eu não devia ter feito nada disso e fiz, por isso é que senti umas dores de cabeça. Descobri na Internet que tenho várias doenças incuráveis, horríveis. Culpa, talvez, do facto de ter deixado de ir à igreja. Dizem que deus castiga. Agora resta-me evitar as transfusões de sangue, as quimioterapias, os transplantes de órgãos, bem como mudar os meus hábitos alimentares para definitivamente NUNCA mais comer… hum… o que quer que digam na Internet que não devo comer. Ainda assim dizem que vou para o inferno.

A ignorância. A crença cega. Desde à encomenda do novo aspirador que aparece na TV, até à aceitação dos filmes americanos pseudo-patrióticos, até à lavagem cerebral feita pelo governo francês… Todos têm a sua lavadora a funcionar. Eu olho para trás mas também devo ter a minha própria máquina de lavar, trabalhando 24 horas por dia para me fazer crer em algo.

Este não é um artigo sobre música, mas é um artigo sobre o ensino. Porque o ensino agora tem de ter um propósito mais limpo e digno: combater a ignorância. Abrir os olhos. Esquecer a qualificação (ui, será que o governo francês me vai espiar por defender isto?), evitar a TV e restantes entretenimentos ridículos (já devo ter uma escuta por esta altura), ganhar prazer em fazer bem a nós próprios (será que ainda consigo passar na fronteira?)… O grande desafio do futuro não vai ser termos mais mestres ou doutores, mas sim termos mais e mais gente capaz de escapar à lavagem.

A solução é mesmo essa, educação. A tal educação.

O que acontece hoje em dia é que educação parece ser só uma maneira eficiente de fazer desaparecer metade das pessoas de um país entre as 8.30h e as 18.30h. É muito prático, assim elas não incomodam, não fazem perguntas, não brincam, não conversam com ninguém… Estão ali num cantinho. Elas até já saem seriadas consoante a “média final”, assim é mais fácil arrumá-las no futuro.

Há que mudar isto. E há ideias. E estão a ser postas em prática com bons resultados, mas como as médias não são “médias de 20″… Muita gente não acredita nelas. O problema é realmente fazer compreender essas pessoas de que a “média” significa exactamente isto, em termos práticos: nada.

Mudar o ensino é mudar as pessoas. Todas as pessoas.

Pink floyage – A viagem da Sininho!

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Só muito recentemente tive consciência que muitos de nós, para não dizer a maioria, andam adormecidos, provavelmente desde a adolescência. Os percursos de vida dos indivíduos são sobreponíveis à escala mundial, exclusivamente direcionados para o exterior. São, na sua maioria, despidos de crescimento interior, destituídos de necessidade de autoconhecimento, vazios na essência e na profundidade. Valorizam-se as formas e nunca o conteúdo, adoptam-se estilos de vida artificiais e superficiais nas relações humanas e na própria relação com o eu. Em nenhum momento do caminho ousamos parar, sentir, parar, ver e ouvir com o coração, parar, para depois andar, e dançar!

É-nos vendido o “itinerário para a vida” e nele ingressamos, iludidos (mas muitas vezes conscientes dessa ilusão), por vezes resignados, por vezes contentes, sem nunca nos questionarmos. Esporadicamente, temos momentos de consciência, nos quais despertamos e recordamos algo maior, mais profundo, como aquela vibração que ressoa dentro de nós e que normalmente associamos a estados de paixão e de inspiração maior, ou consequentes a um momento traumático, que nos convida a perspectivar e a reconstruir. São nestes raríssimos, e por definição transientes momentos de consciência, que surgem os anacronismos, os dilemas, a confrontação e a percepção da distância abismal existente entre o que nos relembramos de Ser, e a realidade construída por nós até ao momento presente. O confronto entre estas duas dimensões normalmente têm consequências catastróficas. A vontade de recalcar, enterrar e de nos anestesiarmos com o que for acessível (químicos, televisão, consumismo….) torna-se a única saída, aparentemente fácil e inócua, numa sociedade condescendente e motivadora de todos esses comportamentos. E vamos dormindo mais um pouco…. O medo. A imagem. O ego. O medo de sentir e de viver quem somos, paralisa-nos! A sensação é a de um murro seco no estômago.

O diagnóstico está feito há muito tempo. Está descrito em textos religiosos, espirituais e até mesmo em documentos científicos. O verdadeiro desafio do Homem não será o de explicar como chegámos até aqui. Deverá ser, antes, como sairemos harmoniosamente deste estado de dormência individual e colectiva em que nos confortavelmente encontramos, e com o qual construímos, diariamente, voluntariamente, cada tijolo dum muro cada vez mais alto e impenetrável que separa a nossa verdadeira essência, dum quotidiano vivido em automatismos. Mergulhámos individualmente, colectivamente, nacionalmente, mundialmente nestas águas pantanosas e pesadas. O desafio será o de nos transcendermos!

Aqueles que percorrem esta linda viagem da vida com consciência, com Amor, identificam a meditação como a forma mais bonita e eficaz de deixarmos brilhar a nossa luz interior e sentir a vibração por entre todos os tijolos, correntes e receios. Com o tempo eles acabam por ceder e partir. É um caminho que dura uma vida. A única vida verdadeiramente vivida.

Tenho a sorte da música e da sua vibração desencadearem esse efeito em mim, desde sempre. O efeito de partir barreiras. A transcendência é como a vibração da músicaquática, o processo é lento mas com repercussões infinitas. Quem nunca se auto-transportou para a “terra do nunca” numa viagem mágica a ouvir um álbum de Pink Floyd está sempre a tempo de comprar o bilhete, e quem sabe acordar!

Do Ensino…

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Ouve-se tantas vezes: “O objectivo do ensino é a aprendizagem do aluno”. Mas será que o ensino tem sido regulado e praticado com este objetivo? Pretende-se neste artigo apontar algumas realidades do ensino português, para que se reflicta sobre elas. Estamos fartos de culpar os governos sucessivamente por tomarem medidas que não favorecem o ensino, e temos razão para isso. Mas e se o ensino começar a ser visto de forma diferente por parte de todas as pessoas envolvidas (professores, alunos, diretores)? Talvez seja uma forma de chamar à atenção do poder executivo pela qualidade.

Uma das falhas, há muito recorrentes, é a visão de um ensino centrado no professor, onde reinam as aulas expositivas e o aluno apenas absorve a informação, sem ter participação alguma na aula. Quando praticado em demasia, este ensino torna-se anacrónico, não acompanha a ‘evolução dos tempos’. Muitos autores defendem, pelo contrário, aulas onde o aluno possa participar, tomar decisões e onde o método de ensino seja adaptado a si e à sua aprendizagem. Claro que tendo um curriculum padronizado e uma pressão constante por resultados, torna-se difícil leccionar sob este modelo de literacia. Obviamente que o ideal será talvez praticar um meio-termo entre aulas expositivas e mais dinâmicas.

Num tempo onde o mercado de trabalho está saturado, urge a necessidade de encontrar uma função na sociedade que não esteja já superlotada, que nos satisfaça e ainda que nos sustente. Parecem ser muitos requisitos, assim como não parece uma tarefa nada fácil. Uma das ferramentas defendidas em estudos de pedagogia é a criatividade. Sendo criativo e original, e tendo um pensamento divergente, torna-se mais fácil chegar à motivação e a algo que façamos e que nos distinga na sociedade.

Mas estará o ensino a favorecer o pensamento criativo dos alunos? Por vezes, este não permite caminhos diferenciados e criativos, por estar standardizado; não está conectado com as necessidades actuais; não motiva os alunos. Por vezes este ensino apenas quer cumprir a sua função de transmitir informação, sem deixar que os alunos a apliquem. Por vezes este ensino não é capaz de usar ferramentas mais actuais como as tecnologias disponíveis. Por vezes é preciso deixar o aluno “pôr as mãos na massa”.

Obviamente que não se defende aqui um modelo ideal de ensino, nem sequer se diz que não há coisas boas, porque há com certeza. Apenas se aponta algumas falhas que podem vir a ser colmatadas, e nas quais os futuros professores, formadores, directores, podem ter uma acção construtiva. Em todo o caso, é importante salientar que muitos dos alunos, têm conseguido encontrar a sua “essência”, ou seja, aquela área ou actividade em que se preenchem e na qual se sentem satisfeitos profissionalmente. É tarefa da escola continuar a proporcionar meios para que estes alunos cresçam e encontrem a tal “essência” ou o tal “je ne sais quois”.