E ele é músico?

Pina Bausch (1940-2009)
Pina Bausch (1940-2009)

Há não mais do que quatro anos atrás, enquanto descobria a minha paixão pela pedagogia, entrei feliz na sala de aula dizendo ao meu professor que tinha encontrado um pianista para tocar “Le Grand Tango” de Piazzolla. Nunca mais me irei esquecer da pergunta que ele imediatamente me fez, sem me deixar sequer respirar: “est-ce qu’il est musicien?” (ele é músico?). Fiquei atónito com a pergunta, e ele ainda me baralhou mais com uma nova pergunta: “est-ce qu’il a du rhytme?” (ele tem ritmo?). Sem saber o que dizer, disse-lhe só que sim e decidi pensar nisso mais tarde.

Demorei algum tempo a perceber o sentido das enigmáticas perguntas. Parecia óbvio que ele estava a priorizar o ritmo sobre qualquer outra qualidade de um músico. E mais estranho ainda, admitia-o abertamente! Como explicar isto?

Com a experiência de ensino, comecei a ver nos meus primeiros passos enquanto professor as minhas próprias ambições, fragilidades, prioridades, tal e qual como um reflexo na água. O barbeiro aprende sempre na cara do cliente: mal tive os primeiros alunos, preocupei-me com a sua motivação e segurança, e portanto quis pô-los a tocar muitas notas e melodias. Mas nem todos pareciam motivar-se com isso. Observando e reflectindo, acabei por interiorizar a ideia de que cada aluno é diferente, e que muitos deles simplesmente concentram-se tanto em “fazer bem” que nem sequer ouvem: vi alunos a tocar uma peça inteira com os dedos numa corda e o arco noutra. Outros ouvem e adoram sempre o que ouvem, por isso não precisam de tocar grandes notas. Outros incomodam-se com o som que tiram, por isso muitas notas são só uma complicação extra. E outros sim, são como eu: trapalhões, apenas querem ouvir um resultado reconhecível, seja razoável ou medíocre, a todo o custo. Mas nenhum precisa de fazer o ritmo certo para se motivar: eles fazem o ritmo certo quando o sentem. Só.

A minha prioridade nunca foi o ritmo. Nunca foi o groove, o feeling, o swing, nunca tinha percebido qual era a lógica atrás de um bom baterista de jazz, de um bom baixista de metal… Mas hoje percebo o quão crucial é o ritmo para a base de qualquer músico. Se um músico tem dificuldade com frequências, ele pode usar o ritmo para se motivar (basta cantar: ninguém canta sem um ritmo!). Se um músico não é crítico sobre o seu timbre e qualidade de som, ele também pode usar o ritmo para se motivar. Mas.. E se um músico tem dificuldade com o ritmo?

É aí que entra a dança no ensino de música. Xavier Gagnepain não estava a priorizar o ritmo sobre nada, mas sim a apontar para o motor, para o núcleo de um músico. Na minha opinião, para trabalhar esse núcleo temos de ir ao seu objecto, à sua materialização, à sua fonte: a dança.

Desde já agradeço ao maître Xavier por esta e muitas outras reflexões que me proporcionou (entre as suas sete línguas, consta orgulhosamente o português, pelo que ele perceberá).

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