Samadhi – Meditar com o instrumento

Samadhi

Tive a oportunidade, há alguns anos, de aprender um pouco de mindfullness. Um tipo de meditação. Rapidamente associei-a a alguns estados mentais nos quais necessariamente me encontrava quando estudava violoncelo, mas depois acabei comparando esses estados mentais aos que se pretendem obter com outros tipos de meditação, como a meditação transcendental. Não encontrei resposta até ler um livro que tive já a oportunidade de citar, chamado “Free Play”, de Nachmanovich. Este músico mergulhou profundamente no mundo da improvisação livre, tocando, claro, no tema da meditação. Eis o que diz a certo ponto:

Uma das melhores maneiras de esvaziar o eu (…) é afinar um instrumento musical. Ao afinar um instrumento musical, somos forçados a obliterar ruídos exteriores e distracções: À medida que o som chega mais perto da vibração pura que procuramos, à medida que a altura do som sobe e desce numa diferença cada vez mais pequena, vamo-nos despindo do corpo e mente. Entramos numa espécie de estado de transe. Esta escuta intensificada é deep play – imersão total no jogo. E assim que pegarmos nesse instrumento para tocar, a audiência entrará num estado de consciência similar, em proporção com o cuidado que tivemos com o processo de afinação.

Qualquer músico com um mínimo de experiência não vai negar isto. Basta referir a velha lenda do Toscanini, que dispensava os violoncelistas nos concursos ainda antes de eles começarem a tocar. A partir da afinação conseguia ver tudo o que achava fundamental numa primeira eliminatória: esse estado de consciência do qual o músico depende. É o mesmo estado de consciência de uma criança quando vê um cão pela primeira vez, e simplesmente desaparece. Todos vimos um bebé neste estado, de olhos muito abertos e completamente imune ao tempo, espaço, distracções, mesmo que o chamemos ou toquemos. O mesmo que se pretende quando se medita (ou quando se dança, segundo os sufistas).

Seria de esperar que este estado de deep play, no aluno, se tornasse progressivamente conhecido, amigo, e com isso motivador, manipulador (do público). Que transformasse o aluno num músico – novamente me lembro de Gagnepain quando dizia “soas como um aluno” ou “soas como um professor”. Mas estranhamente, esse momento vai-se tornando mais frágil, e não mais forte, com o tempo. O aluno cada vez mais se interrompe com a pergunta “já está?”, “e agora, já lhe parece bem?”. Há uma necessidade de obter um resultado certo, rápido, que o deixe ficar bem.

Esta situação faz-me lembrar a de um aluno que quer ser o primeiro da turma a acertar na data da independência do Brasil. Afinal, é na escola que os alunos aprendem a procurar os seus erros, a deitarem-se abaixo, a compararem-se com os outros para ver quem fica melhor na figura… Como podemos querer que, neste estado de situação, um aluno consiga entrar num estado de deep play durante um teste, sob alta pressão para ser bem julgado pelos outros? E então quando isso lhe é exigido durante a resolução de problema matemático envolvendo 129 rebuçados a dividir por dois amigos, ou outra situação igualmente ridícula… É extremamente difícil, e sim, talvez não esteja ao alcance de todos.

A escola de música e de dança pode ter o papel de dotar novamente o aluno e fazê-lo voltar ao estado de imersão, ou de meditação com o instrumento. Tão simplesmente com uma afinação deixada ao cargo do aluno, na sala de aula. Difícil é entender que nesse momento, saem pela janela objectos como o relógio, o caderno de avaliação, o medidor de decibeis, entre outros constrangimentos habituais…

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