Só muito recentemente tive consciência que muitos de nós, para não dizer a maioria, andam adormecidos, provavelmente desde a adolescência. Os percursos de vida dos indivíduos são sobreponíveis à escala mundial, exclusivamente direcionados para o exterior. São, na sua maioria, despidos de crescimento interior, destituídos de necessidade de autoconhecimento, vazios na essência e na profundidade. Valorizam-se as formas e nunca o conteúdo, adoptam-se estilos de vida artificiais e superficiais nas relações humanas e na própria relação com o eu. Em nenhum momento do caminho ousamos parar, sentir, parar, ver e ouvir com o coração, parar, para depois andar, e dançar!
É-nos vendido o “itinerário para a vida” e nele ingressamos, iludidos (mas muitas vezes conscientes dessa ilusão), por vezes resignados, por vezes contentes, sem nunca nos questionarmos. Esporadicamente, temos momentos de consciência, nos quais despertamos e recordamos algo maior, mais profundo, como aquela vibração que ressoa dentro de nós e que normalmente associamos a estados de paixão e de inspiração maior, ou consequentes a um momento traumático, que nos convida a perspectivar e a reconstruir. São nestes raríssimos, e por definição transientes momentos de consciência, que surgem os anacronismos, os dilemas, a confrontação e a percepção da distância abismal existente entre o que nos relembramos de Ser, e a realidade construída por nós até ao momento presente. O confronto entre estas duas dimensões normalmente têm consequências catastróficas. A vontade de recalcar, enterrar e de nos anestesiarmos com o que for acessível (químicos, televisão, consumismo….) torna-se a única saída, aparentemente fácil e inócua, numa sociedade condescendente e motivadora de todos esses comportamentos. E vamos dormindo mais um pouco…. O medo. A imagem. O ego. O medo de sentir e de viver quem somos, paralisa-nos! A sensação é a de um murro seco no estômago.
O diagnóstico está feito há muito tempo. Está descrito em textos religiosos, espirituais e até mesmo em documentos científicos. O verdadeiro desafio do Homem não será o de explicar como chegámos até aqui. Deverá ser, antes, como sairemos harmoniosamente deste estado de dormência individual e colectiva em que nos confortavelmente encontramos, e com o qual construímos, diariamente, voluntariamente, cada tijolo dum muro cada vez mais alto e impenetrável que separa a nossa verdadeira essência, dum quotidiano vivido em automatismos. Mergulhámos individualmente, colectivamente, nacionalmente, mundialmente nestas águas pantanosas e pesadas. O desafio será o de nos transcendermos!
Aqueles que percorrem esta linda viagem da vida com consciência, com Amor, identificam a meditação como a forma mais bonita e eficaz de deixarmos brilhar a nossa luz interior e sentir a vibração por entre todos os tijolos, correntes e receios. Com o tempo eles acabam por ceder e partir. É um caminho que dura uma vida. A única vida verdadeiramente vivida.
Tenho a sorte da música e da sua vibração desencadearem esse efeito em mim, desde sempre. O efeito de partir barreiras. A transcendência é como a vibração da músicaquática, o processo é lento mas com repercussões infinitas. Quem nunca se auto-transportou para a “terra do nunca” numa viagem mágica a ouvir um álbum de Pink Floyd está sempre a tempo de comprar o bilhete, e quem sabe acordar!