Do Ensino de Música Parte 2: Onde ficam os ouvidos? E a emoção?…

imagem artigoCerto dia, tinha a televisão ligada em mais um daqueles canais, que cada vez nos ensinam menos e já nem nos entretêm. No entanto, a certa altura começa uma entrevista com uma senhora que acolhe crianças em situação precária. Nada disto me chama muito à atenção, até que esta se refere ao rapaz que adotou, dizendo: “Ele faz melodias no nosso piano, sem ter uma única noção de música!”. Ora, eu pensei imediatamente: “Claro que faz!”.

Pensando neste exemplo, e comparando com os atuais alunos de música, vemos que cada vez mais se exaltam alguns erros fulcrais na nossa relação com a música. O maior de todos deve ser mesmo o facto de os músicos não tocarem por prazer, mas com vista a resultados. Ou seja, os alunos gostam muito de tocar (obviamente), mas não no sentido de realizar essa ação para uma satisfação mais duradoura e aos olhos da pedagogia, um interesse individual. Vítimas um pouco do nosso sistema educacional, os nossos músicos tocam para entrar num ensino superior que lhes exige serem ótimos “tocadores de instrumento”. Se não tiverem essa emoção duradoura ao tocar, esse interesse individual, um dia ficarão sem vontade de tocar. Isto é, num momento em que é já bastante acessível estudar instrumento, é importante que se saiba esperar pelas decisões mais corretas em relação a um possível futuro na música.

Mas apenas lendo e tocando uma partitura, estamos a fazer música? Já McPherson, e outros estudiosos, dizem o contrário, ou seja, na conjuntura olhos e sistema motor, faltam os ouvidos. A audição está cada vez mais a ser descartada da prática musical. Mas de que serve tocar uma escala, se não a soubermos cantar, audiar? Se não a soubermos cantar, na verdade nunca a percebemos/interiorizamos realmente.

O rapaz de que falo no início deste artigo nunca teve aulas de formação musical, muito menos de piano. Ele apenas cantava ou tocava com o que teve disponível até hoje, mas estabelecia no seu cérebro um entendimento do que ouvia ou tocava, através do sistema auditivo, cerebral/neurológico e motor. Isto fez com que reconhecesse cada som, que havia cantado ou tocado, quando colocou as mãos no piano. É nesse sentido, a meu ver, que deve caminhar o ensino da música, ou seja, através da visão de que o instrumento é apenas um meio para um entendimento e audição aprofundada da música. Tudo o resto deveria surgir a posteriori.

Publicado por

Margarida Cardoso

Ana Margarida Cardoso iniciou os seus estudos musicais nas Bandas de Seia e Gouveia. Depois de ingressar no Conservatório de Música de Seia - Collegium Musicum, decidiu optar pelo Ensino Profissional. Concluiu então o curso de Instrumentista de Sopro e Percussão, na Escola Profissional da Serra da Estrela. Com a PAP (Prova de Aptidão Profissional), viu ser editado o seu primeiro livro "O Oboísta e a Palheta Dupla". Seguiu-se a licenciatura em Ciências Musicais na FCSH, Universidade Nova de Lisboa. No contexto da licenciatura, realizou um estágio curricular na OCP (Orquestra de Câmara Portuguesa), sob orientação de Alexandre Dias e Pedro Carneiro. Frequenta atualmente o Mestrado em Ensino de História da Música, na Universidade de Aveiro, e lecciona História da Música na Escola Profissional da Serra da Estrela.

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