Hoje é o dia do mito. Abracem um.

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Xô, xô, afastai-vos, seres do demónio! Ahummm, ahummm… Xô convosco, xô com os que só vão ler duas linhas disto até perceberem que não envolve mulheres nuas, nem futebol, nem é engraçado. Pronto, estou a brincar. Fiquem comigo, vá lá. Sou um animal meigo, e falo-vos com amizade acerca daquele excelente ensaio do David Marçal chamado “Pseudociência”. Que, a propósito, tem servido eficazmente de arma de arremesso para os fundamentalistas do “não se vê, logo não existe”, ou para os cépticos de todo o tipo, ou para os que acreditam que a ciência é a resposta para tudo na vida. Mas cada um vê o que quer ver, e se fizermos um esforço também vemos ali suporte para os que vivem das incertezas, para os fundamentalistas comunistas, enfim…

Nada disso me incomoda. Aliás o livro é fantástico e recomendo-o profundamente. Nem 5€ custa, lê-se num instante, e é um bom livro mesmo. Fala muito da desinformação que abunda por aí: basta ligarmos a televisão durante a tarde para vermos alguns produtos “milagrosos”, “cientificamente testados”, que tanto consomem a já-de-si curta reforma dos nossos velhinhos. O livro explica como é que estas mentiras chegam à televisão, e incita-nos a agir para acabar com isso. Mas se formos “caçar” a desinformação sem qualquer critério moral, só para alimentar o nosso próprio ego, também acabamos por ser uns parvinhos sem sal nem cor nenhuma. Ninguém gosta dos sabichões que dizem que somos estúpidos por acreditarmos na sorte, na religião, no karma, no tio patinhas ou no ET, pois não?

Li um artigo assim meio sanguinário que despedaçava todos os mitos da lua cheia, e falando-se em Platão lembrei-me da doutrina do ethos, apoiada por tantos filósofos e teóricos na Grécia antiga. Não vou entrar em grandes detalhes sobre isso, mas basicamente a ideia deles era equilibrar a música, o exercício físico, os costumes e a maneira de viver, etc, de maneira a formar um ser equilibrado. E tem sido sempre um tema actual: no barroco falava-se nos affeti, e ainda no século passado tínhamos um psicólogo chamado Watson a dizer give me a baby and I can make him any kind of man

…sou o único a achar tudo isto tremendamente bonito e poético? O exemplo da Lua: eu posso crer ou não crer que a lua influencie o ser humano, mas em ambos os casos ela está lá. Inspirou milhares de artistas, é bonita, é misteriosa, e se nos deixarmos levar pela tal mentira (ou verdade), o máximo que acontece é sair um poema, um quadro ou uma coreografia. Nada de muito perigoso. A frase do Watson também ficou famosa por ser tão bonita e inspiradora: abraça uma criança, cuida do teu meio, da tua família, do teu bairro, do teu planeta, que ele te retribuirá tudo o que fizeres por ele. A homeopatia também é poética e bonita: tudo mata, tudo cura, procura o bom que há no mau e o mau que há no bom. Vamos mais longe, à religião: ama o próximo como a ti mesmo, honra teu pai e tua mãe… Não me acredito que nenhum destes conceitos te toque, amigo leitor, a menos que não tenhas coração (o coração figurado, bonito, não aquele que sei que tens, e que em boa verdade espero que bata por muitos e longos anos).

O que defendo, mais do que uma tomada de posição feroz sobre estes assuntos, é que todos possamos ser verdadeiros, inteligentes, cultos, sem deixarmos de ser criativos, imaginativos, artistas… Felizes, em suma. Basta separar o que é conhecimento e o que é sabedoria. Conhecimento é evitar acreditar, e sabedoria é fingir acreditar… Não?

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