Quem se dedica à aquariofilia sabe a dificuldade que é criar e manter um aquário saudável e bonito. O truque é fazer com que os peixes se sintam o mais à-vontade possível, já que são eles que vão criar o seu próprio ecossistema. As plantas não vivem sem eles (principalmente sem os que comem os caracóis!), mas eles também não vivem sem as plantas. Tudo isto exige espaço e tempo.
Comprar um aquário para iniciantes é portanto uma muito difícil escolha. Se comprarmos um aquário pequeno, o investimento de tempo e dinheiro é menor, mas o hobby vai ser tão difícil que eventualmente desmotivamos e desistimos. Se comprarmos um aquário grande, vai ser mais fácil começar e vamos estar mais motivados, mas temos de ter uma grande confiança em nós próprios porque pagamos bastante por tudo isso. Este é um dos dilemas que exigem alguma ponderação e equilíbrio quando criamos um aquário…
…ou quando orientamos os nossos filhos para aprender um instrumento musical. Se compararmos momentaneamente os alunos de música a peixes bonitos e coloridos, descobrimos que ensinar é um pouco como praticar aquariofilia. Desde a compra de um instrumento (barato ou caro, bom ou “mais ou menos”), até à postura nas audições, as comparações são imensas. E já que o artigo não vai muito longo, deixamos alguns exemplos:
- Compra de um instrumento: É talvez o exemplo mais óbvio. Um instrumento muito fraco nunca vai ter muito bom som, por muito que o aluno toque bem. Por outro lado, é precisa uma grande dose de confiança por parte dos pais para decidir encurtar as férias e comprar um instrumento melhor… Quantas vezes não ouvimos “isto é só uma fase, daqui a uns meses se calhar já quer desistir”?.
- Ensino da “técnica instrumental”: Comprar um livro sobre aquários antes de começar um aquário nem sempre é boa ideia. Através do livro, vamos começar com um aquário grande, dezenas de químicos, areia especial, plantas caríssimas, redes e outros acessórios… Em suma, por vezes o melhor é seguir o instinto e obrigar-nos a fazer asneiras. O mesmo acontece com uma criança em aprendizagem: quanto mais praticar, melhor vai tocar. O que procuramos nas nossas aulas é acelerar esse processo, resolvendo problemas que podem assaltar o aluno mais tarde. Mas se somos demasiado interventivos, impedindo o aluno de improvisar e de tocar o que quiser e como quiser, estamos a retirar espaço e água ao aquário… E ele vai acabar por desistir. Novamente, é um compromisso difícil de manter.
- Lidar com a adversidade: Entrar numa loja com aquários é perceber que há soluções para tudo. Desde produtos para embelezar as plantas até químicos para matar os caracóis, há sempre algo errado no nosso aquário. Por outro lado, se entramos em pânico quando vemos o PH a subir 0.1, estamos a fazer diminuir a resistência do peixe, e ele vai ficar mais e mais sensível às variações do PH… Um dia morre e não se sabe porquê. Há que deixar o peixe lidar com a adversidade. Um aluno também tem de lidar com a adversidade sozinho, porque isso fá-lo-à ganhar prazer e know-how com o instrumento. O professor que protege o aluno da agressividade do palco, da falta de tempo, das pequenas irritações na orquestra, poderá estar a perpetuar um mundo cor-de-rosa irreal, e garantir que a queda será maior no futuro.
Dirá o leitor que formar um músico (ou um peixe) não é, afinal, nada de novo. Quem queira começar a sua pequena horta urbana tem de tomar as mesmas decisões, por exemplo. Mas nada disso desvirtua a comparação com os peixes: além de mais bonita, pode-nos ajudar a decidir sobre questões que não são, afinal, tão complicadas assim.